Naquele tempo todos os povos falavam uma língua só, todos usavam as mesmas palavras. 2 Alguns partiram do Oriente e chegaram a uma planície em Sinar, onde ficaram morando. 3 Um dia disseram uns aos outros:
— Agora vamos construir uma cidade que tenha uma torre que chegue até o céu. Assim ficaremos famosos e não seremos espalhados pelo mundo inteiro.
Num primeiro instante a torre serviria como um referencial físico, geográfico que ajudaria o povo a não se perder entre os demais. Era a referencia física para ajudá-los a voltar pra casa. O mundo estava em franca expansão, era mister que se fizesse algo que os ajudaria a não se perder no futuro próximo.
— “Não seremos espalhados pelo mundo inteiro”.
Mas o texto nos diz que havia uma segunda intenção na construção da torre.
— “Assim ficaremos famosos…”
Neste sentido a torre deixa de ser um referencial físico e passa a ser referencial simbólico para a alma. A torre se torna sinônimo de poder.
A torre ajudaria-os tanto, fisicamente quanto simbolicamente. Tanto fora, quanto dentro. Ela se tornaria fator agregador e definidor da identidade do povo.
A história se repete. Nós continuamos a construir torres para não nos perder.
Torre é a emancipação do ego. É o ego levado às alturas. É aquilo que me faz diferente dos outros num primeiro momento, mas que em outro, me faz aparecer mais que os outros. É aquilo que na hora da competição me distingue dos demais.
Nesse contexto entra os cursos que fazemos, as graduações, os mestrados e doutorados.
O bairro em que moramos, a casa em que vivemos, o carro que usamos, a roupa que vestimos, o idioma que falamos, tudo isso serve como referencial interno que nos valemos quando entramos em competição no jogo da vida.
A célebre frase “Você sabe com quem está falando?”. Quando dizemos assim, estamos evocando dentro de nós o currículo de vida. Toda a nossa formação que nos faz ser diferentes e nos faz ser melhores que os outros.
A torre é a referencia interior que usamos para não nos perder quando entramos em contato com outras pessoas ou outras culturas. A torre é a nossa identidade, aquela para o qual nos voltamos quando somos questionados ou avaliados. Quando estamos sob acusação ou sob o peso da dúvida.
Quem sou eu?
Neste momento olhamos para nossa história de vida; nosso parentesco e nossa formação cultural, a fim de encontrar uma resposta que seja compatível com a realidade que nos cerca.
Neste sentido, a torre como referencia para o diferente, não é errado em si. Mas quando usada para nos destacar entre os demais ou querer ser melhor que os demais, ou querer usar aquilo que somos e o que temos para se sobrepor aos demais, então, pecamos. Quando o que somos é usado para oprimir e não apenas para nos distinguir, pecamos!
A torre é, portanto, nosso porto seguro interior que usamos como referencial para não nos perdermos entre os demais. Por isso, quanto mais alta for a sua torre, mais célebre será o seu nome. Quanto mais alta for a sua torre, mais notável será você entre os demais.
O Referencial de Abraão – Gn 12
Com Abraão aconteceu algo parecido. Foi tentado e provado do mesmo jeito que o povo, porém reagiu diferente.
Certo dia o Senhor Deus disse a Abrão:
— Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vá para uma terra que eu lhe mostrarei. 2 Os seus descendentes vão formar uma grande nação. Eu o abençoarei, o seu nome será famoso, e você será uma bênção para os outros.
Veja o desafio de Abraão: Saia da sua terra, do meio dos seus parentes e da casa do seu pai e vai para uma outra cultura onde ninguém te conhece, ninguém sabe o seu valor, ninguém sabe do seu potencial, da sua formação, um lugar onde você será um “joão ninguém”. Essa é a “tentação da torre”.
Diz o texto que Abrão tinha setenta e cinco anos quando partiu de Harã, como o Senhor havia ordenado.
Abrão atravessou o país até que chegou a Siquém, um lugar santo, onde ficava a árvore sagrada de Moré. Naquele tempo os cananeus viviam nessa região.
Naquele lugar Abraão construiu um altar a Deus, o Senhor, pois ali o Senhor havia aparecido a ele. 8 Depois disso Abraão foi para a região montanhosa que fica a leste da cidade de Betel e ali armou o seu acampamento. Betel ficava a oeste do acampamento, e a cidade de Ai ficava a leste. Também nesse lugar Abraão construiu um ALTAR e adorou o Senhor. 9 Dali ele foi andando de um lugar para outro, sempre na direção sul da terra de Canaã.
A provação aumenta mais ainda. 10 Naquele tempo houve em Canaã uma fome tão grande, que Abrão foi morar por algum tempo no EGITO. Aqui mesmo é que ninguém o conhece. Até a sua esposa é roubada. Um homem sem história, sem esposa, sem referencias numa terra diferente.
Então o rei deu ordem, e os seus guardas levaram Abrão para fora do Egito, junto com a sua mulher e com todas as coisas que eram dele.
13.1 Abraão saiu do Egito com a sua mulher e com tudo o que tinha e foi para o sul de Canaã. E Ló, o seu sobrinho, foi com ele.
2 Abarão era muito rico; tinha gado, prata e ouro. 3 Ele foi de um lugar para outro até chegar à cidade de Betel; e dali foi para o lugar que fica entre Betel e Ai, onde já havia acampado antes. 4 Abraão chegou ao altar que ele havia construído e adorou a Deus, o Senhor.
Veja a insistência do texto em dizer que Abraão foi de um lugar para outro. O texto insiste em falar das andanças dele. Arameu, peregrino em terra alheia.
Qual era referencia física e simbólica de Abraão para que ele não se perdesse entre os povos?
Olha que coisa fantástica!
Ele foi de um lugar para outro até chegar à cidade de Betel; e dali foi para o lugar que fica entre Betel e Ai, onde já havia acampado antes. 4 Abrão chegou ao altar que ele havia construído e adorou a Deus, o Senhor.
_ Abraão chegou ao altar que ele havia construído e adorou a Deus, o Senhor.
Enquanto alguns constroem torres para não se perder, abraão constrói um Altar – Lugar da experiência com Deus.
Abraão é como aquele gato que você quer expulsá-lo de casa e levá-o para bem longe e quando você chega em casa o gato já está lá de volta, antes mesmo de você.
Enquanto a torre é o lugar da emancipação do eu, o altar é o lugar do sacrifício do ego.
Ele sabia que poderia se misturar e não ser reconhecido, não ser valorizado, não ser bajulado, não ser amado, não ser percebido por ninguém, mas uma coisa ele sabia: Há um lugar em Deus para mim. Deus me conhece!
A história de Abraão foi cotada a partir de sua experiência om Deus. Essa experiência servia como referencial interno com o qual ele balizava suas experiências. O altar se tornou um referencial tanto físico quanto simbólico.
Suas maiores experiências que exigiram dele um confronto ele decidiu calar-se e abrir mão sem contender ou subjugar ninguém. Nas piores crises ele recorria á sua experiência com o Criador como fator autenticador de sua identidade. Foi conhecido como amigo de Deus e Pai da Fé. Não foram os seus bois, escravos, escravas, posses que definiram a história de Abraão, mas sua relação com Deus.
A torre é o lugar onde queremos fazer o nosso nome célebre. O Altar é o lugar onde Não fazemos nada por interesse pessoal ou por desejos tolos de receber elogios; mas aprendemos a ser humildes e a considerar os outros superiores a nós mesmos. Onde não procuramos somente os nossos próprios interesses, mas também os dos outros.
No Altar aprendemos a ser como Jesus Cristo que tinha a natureza de Deus, mas não tentou ficar igual a Deus. Pelo contrário, ele abriu mão de tudo o que era seu e tomou a natureza de servo, tornando-se assim igual aos seres humanos.
E, vivendo a vida comum de um ser humano, ele foi humilde e obedeceu a Deus até a morte
— morte de cruz.
Por isso Deus deu a Jesus a mais alta honra e pôs nele o nome que é o mais importante de todos os nomes.
Na hora do confronto de identidade, qual referencial nós buscamos?
Nossa história de vida ou a nossa história com Deus?
Torre ou Altar, qual o seu referencial?
Em Cristo, que Não clamará, nem gritará, nem fará ouvir a sua voz na praça. […]
Isaías 42:2, 3
Tarcísio Oliveira